Sonhos em Periperi

Por Amana Barros

A parada em Periperi, entre Coutos e Praia Grande, é absolutamente confortável, contradizendo a premissa que relaciona o subúrbio com local mal cuidado. O bairro tem gostinho de interior, com direito a festa na Praça da Revolução e missa na Igreja da Conceição nos finais de semana. Além de auto-falantes que alegram as tardes daqueles que lá vivem e praias paradisíacas. Periperi já foi até cenário de um livro de Jorge Amado, “Os velhos marinheiros”, quando, ainda na década de 60, era utilizado como espaço de veraneio.Avenida Principal

 Igreja da Praça

 Mas as atrações de Periperi não param por aí. No verão acontece o Perifolia – evento que, neste ano, aconteceu em 06 de janeiro e contou com a presença de quatro blocos e dois trios elétricos. O preço da camisa do bloco varia entre R$20 (vinte) e R$30 (trinta reais). O mesmo Perifolia que, em 2006, chegou a reunir 50 mil foliões – “O mais tranqüilo que já aconteceu”, garante a polícia local.

Porém, se o estômago reclamar durante a festa, não há motivo para se desesperar. Por ano, são cadastrados cerca de 200 vendedores ambulantes. Ou, se preferir fazer uma refeição, ali, bem ao lado da praça, você encontra o Bar e Restaurante Porto Seguro – onde o PF de frango assado, prato que mais sai, custa apenas R$8 (oito reais), sendo o cardápio composto também por frutos do mar e carnes diversas.

Porto Seguro Drinks

Castelo dos Sonhos Possíveis

                 E é nesse aconchegante bairro que se encontra um modesto escritor e professor, Seu Ailton Santana. Há mais ou menos 20 anos, após ter escrito Hormônio” (livro pelo qual ganhou o prêmio Melhor Leitura para jovens na Bienal de São Paulo em 1986)Castelo dos Sonhos, Seu Ailton teve uma idéia absolutamente audaciosa: construir um castelo! Ele se chamaria Castelo dos Sonhos Possíveis e seria capaz de estimular a imaginação e a vontade de sonhar das pessoas, permitindo que elas almejassem ir à luta pelos seus desejos!

 

 Não pestanejou. Saiu às ruas de Salvador a perguntar quais eram os sonhos da população. Quando conseguiu reunir mil deles, em 1989, voltou para casa, com dinheiro do próprio bolso, chamou o pedreiro – que, ressaltando, nunca tinha construído um castelo na vida – e disse “Mãos à obra!”.

Planta do Castelo

          Entre formas e reformas, o Castelo ficou pronto em 1992. Mas Ailton não parou mais de construir, construir vidas. No Castelo, eram ministradas palestras para a população – sendo os temas escolhidos pelo seu próprio público -, havia teatrinhos de fantoches e a Arca da Rainha para a criançada, um baú mágico que contem todos os seus pertences. Sempre disse: “São coisas simples, sonhos possíveis”; e são mesmo. Ele ajudava a pagar um cursinho de vestibular; a procurar emprego ou um imóvel pra alugar; ajudava até a arranjar amores, escrevendo, na porta do castelo, as características exigidas. Para ajudar a coletar tantos pedidos, Seu Ailton criou a Rádio dos Sonhos Possíveis – uma rádio comunitária de Periperi – e contava ainda com seus quadros de aviso na porta do Castelo, onde as pessoas deixavam os recados.

  

Ailton Rodrigues de Santana é filósofo, psicólogo, jornalista, escritor, poeta, professor, ouvinte, sonhador… Além de Hormônio, criou A Menina que Enganou o Sol, Tatau Virou Mingau, A Ex-miss Suburbana, que estão espalhados por bibliotecas de vários cantos do Brasil: Rio grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Goiás, Bahia. Sua última criação se chama Bola Dividida, livro que ele nos deu e fez questão de falar que, depois que lêssemos, deveríamos doar a uma biblioteca pública.

Há um ano, Ailton sofreu um derrame cerebral que afetou a capacidade de locomoção do seu lado esquerdo. Com o objetivo de se recuperar, Ailton pretende alugar o castelo e se mudar para a casa da filha, que se casou tem pouco tempo. Para alguém que já realizou o sonho de tantos, nada mais justo que tentar realizar o seu maior sonho possível: o de ficar bom. 

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