Passeio na Feira

Por Camila Queiroz

 Entrada da FeiraGalos voando, um vai-e-vem de pessoas, carrinhos-de-mão repletos de mercadorias, barracas com artesanatos pendurados e bancadas carregadas de frutas de diversas cores compõem o rico cenário popular da Feira de São Joaquim. Desde colas que tudo grudam até pós que conquistam a pessoa desejada, os produtos da feira encantam os visitantes com seu caráter mítico e religioso. Só quem a visita consegue entender as suas peculiaridades que lhe confere uma vida própria e única. Não há quem não fique maravilhado com sua diversidade de cores e sua vitalidade, além de perceber a diversidade social da cidade de Salvador. Pertinho da Estação Ferroviária da Calçada, vale a pena fazer a feira neste lugar tão encantador antes ou depois de pegar o trem.

Indo para a FeiraPara conhecer a Feira de São Joaquim, o ideal é acordar bem cedinho, vestir uma roupa confortável, colocar uma sandália de dedo, pegar um “sacolão” e ir direto à feira, recomenda o site iBONFIM. Só não pode ter pressa, afinal, para conseguir visitar este imenso labirinto, o visitante tem que andar bastante.

Considerada a maior e mais importante feira popular da Bahia, a Feira de São Joaquim recebe o nome do santo avô de Jesus Cristo. Localizada na Enseada de São Joaquim, na Rua Frederico Pontes, a feira ocupa uma área de mais de 34m² entre a Baía de Todos os Santos e a Avenida Oscar Pontes, e tem mais de quatro mil boxes espalhados pelas 22 ruas, que ocupam mais de dez quadras. Segundo informações do site da Prefeitura de Salvador, há 75 mil trabalhadores no local e, por dia, 10 mil consumidores pela feira passam por ali.

A história da Feira de São Joaquim começou na década de 30, quando ainda se chamava Feira do Sete. Localizada no bairro do Comércio, próxima ao sétimo armazém das DocHistória da Feiraas – que lhe atribuiu seu primeiro nome -, era uma feira móvel que atraiu muitos comerciantes e fregueses com o passar dos anos. Entretanto, o crescimento desordenado e as obras de modernização do porto de Salvador provocaram a sua mudança de endereço.

Mudando-se para um lugar um pouco além das Docas, a feira também trocou de nome, passando a se chamar Feira de Água de Meninos. Servia como entreposto comercial entre Salvador e outras regiões da Baía de Todos os Santos, como Maragogipe, São Félix, Nazaré das Farinhas, Bom Jesus dos Passos e Ilha de Itaparica.  Os saveiros, que transportavam frutas, verduras, cerâmicas, farinha, tecidos e outros produtos da região, chegaram a marcar presença em alguns livros de Jorge Amado, como Capitães de Areia (1937). Porém, um incêndio, cuja causa não foi esclarecida, destruiu a antiga feira na década de 60: a maioria das barracas foram queimadas.

                Depois desse triste acontecimento, os feirantes ocuparam a enseada de São Joaquim e a feira passou a ser chamada de Feira de São Joaquim, graças ao seu novo endereço. Casa Hei de VencerUm acordo estabelecido entre a Prefeitura de Salvador, o Sindicato dos Feirantes, a Capitania dos Portos e a Companhia das Docas da Bahia, em 12 de outubro de 1964, regulamentou a área. Desde então, a feira foi crescendo e garantindo seu espaço como um dos maiores centros de comércio da cidade de Salvador.

                A Feira de São Joaquim está se tornando um dos maiores pontos de turismo alternativo da cidade. Pouco a pouco, está conseguindo lugar nas rotas turísticas tradicionais. A feira já recebe visitantes do mundo todo, que ficam encantados principalmente com o artesanato e os artefatos da cultura africana, especialmente produtos ligados ao candomblé. As barracas oferecem uma ampla variedade de produtos, sendo considerada por muitos uma feira cPomba Gira Rainhaompleta, onde se pode comprar tudo que deseja.

               A barraca de nome Casa Hei de Vencer chama atenção com seus artigos de umbanda. Chifre de boi, jarros para mau olhado e imagens de orixás e ciganas compõe as prateleiras da loja, variando de R$ 4 a R$100. A escultura da Pomba Gira Rainha se destaca entre as demais. Vestida com uma capa vermelha, com botas pretas e uma coroa, ela é uma satanás, entidade do orixá Exu e escrava de Santa Bárbara (Iansã), que representa a parte ruim dos seres humanos. Segundo o vendedor Isaac Lima, de 27 anos, seus artigos são mais vendidos à população de Salvador para o cultivo da cultura afro. “Brasileiros e baianos são os que mais cultivam a cultura do candomblé. 80% [dos brasileiros e baianos] é [pratica o] candomblé. Até os cristãos às vezes compram. Às vezes falam ʻAh! Eu não faço candombléʼ, mas um pouquinho tem. Até uma folha que você toma um banho faz parte do candomblé”, explica.

                Para quem é fã da pimenta baiana, a Banca Foi Deus Que Me DPimentaseu é o paraíso. Procurada mais na época da Quaresma, do Carnaval e das Festas de Largo, as pimentas desta barraca apimentam os acarajés das baianas vendidos nestes períodos. Os turistas se interessam por sua loja pela curiosidade, sempre perguntando qual é a malaguetinha, qual a malagueta comum, para ver de perto aquilo que tempera suas bocas.  A pimenta malaguetinha é a mais vendida. “Essa daí é a tradicional da Bahia, tradicional da baiana, do acarajé, do restaurante, do hotel”, informa o vendedor Jossias, de 54 anos.

                A barracArtesanato Penduradoa de José Ilton é a mais variada. Desde porquinhos de barro até banhos de folha engarrafados, a loja atrai os olhares do turista com seus artesanatos pendurados. Lá se podem encontrar vasilhas de barro, chapéus de palha, colheres de pau, potes de fazer caipirinha, quadros, bebidas alcoólicas e até imagens religiosas.

                 O verão é a época que a barraca recebe mais turistas, principalmente estrangeiros. Para José Ilton, de 42 anos, falar inglês não atrapalha as vendas, pois com o conviver ele aprendeu algumas palavras e, na hora de negociar, dá-se um jeito. Segundo o comerciante, os turistas estrangeiros geralmente buscam por panelinhas de barro, colheres de pau, pratos de tempero e búzios. Os brasileiros, em especial os cariocas e os paulistas, preferem as peças de artesanato, já que são mais baratas na Bahia. Questionado se já houve alguma história interessante ou bonita com os turistas, José Ilton respondeu: “História bonita é que eles compram e um ano depois que eles [os turistas] vêm eles vêm e compram de novo na barraca”.

                Dois produtos da loja de José Ilton se destacam: as garrafas de banho de folha e os pós “milagrosos”. Dentre os banhos de folha há o Tira Quizanga, um banho de descarrego para quebrar mau olhado e para abrir caminhos. Tem também o Pega homem, utilizado para quem deseja conquistar alguém. Custam R$ 4 e atendem àquelas pessoas que têm preguiça de cozinhar as folhas para preparar o banho ou àqueles indivíduos que querem ser discretos, que desejam esconder suas crenças, uma vez que já vêm pronto para o uso.

                Sai de mim, Quebra Feitiço, Corredeira, Pega Mulher, Faz Quem Não Quer Querer e Pega Homem são algunPós \s dos pós “milagrosos” vendidos. Custando apenas R$ 1, basta passá-lo na mão, fazer uma cruz no peito e pegar na pessoa-alvo para alcançar os objetivos traçados pelo nome do pó. Não é preciso tocar na pessoa logo após o uso: não há prazo-limite, sua fé que determinará a eficácia do produto. “Vou passar aqui em você pra (sic) você tá (sic) amanhã atrás de mim!”, disse José Ilton a repórter garantindo que o pó funciona rápido.

                Em meio a tantas barracas, a Casa Santa Bárbara se destaca por sua beleza e seu tamanho. Aberta há apenas dois meses por uma família paulista recém mudada para Salvador, a loja tem todo o tipo de artigos religiosos, louças de porcelana, vasilhas de barro, árvores da fortuna, panos e roupas africanas. Lá se pode encontrar não só artigos religiosos ligados às religiões africanas, como também imagens de santas e santos católicos, diferente de muitos outros boxes da feira. Buscando um diferencial frente às outras barracas, a loja foi montada visando atingir um padrão Estante com imagens, cristais e peças em ourode qualidade com a venda de mercadorias de primeira linha a fim de conquistar um público diferenciado – sobretudo turistas. O vendedor e publicitário Leandro Leonardo, de 26 anos, está satisfeito com as vendas e afirma que a procura por seus produtos está tão grande que para manter o estoque está dando trabalho. A loja, que aceita todos os tipos de cartões de crédito, funciona de segunda a sábado, das 7 às 18 h, e domingo, das 8 às 11 h.

                Os artigos religiosos importados da África enchem as prateleiras. Segundo o comerciante Leandro Leonardo, são peças muito difíceis de obter, porém a loja tem uma facilidade em vImagens Africanas de Orixásender na feira por um menor preço. Além de uma série de orixás de pintura barroca folheados a ouro, há uma linha africana de 17 imagens de orixás com expressões faciais que encantam qualquer um. Exu, Ogum, Oxóssi, Xangô, Ossaim, Obaluaê, Obá,Iemanjá, Nanã, Oxaguian e Oxalufan são alguns dos orixás oferecidos por essa linha, custando R$ 25 cada. Porém, o que chama mais atenção é uma estante que reúne cristais pendurados, imagens mais rebuscadas e peças em ouro de uma beleza indescritível.  

                As roupas vendidas na Casa Santa Bárbara também são muito bonitas. Variando de R$ 85 a R$ 5000, são muito procuradas pelos pais-de-santo. Os turistas geralmente compram batas africanas mais simples, que podem ser utilizadas no dia-a-dia.  Não só as roupas são os atrativos da loja, como também suas louças de porcelana. Por semana, são vendidos de 10 a 20 jogos completos, com preços entre R$100 a R$ 450.  A maioria delas apresenta pinturas de flores em suas extremidades e Roupas uma, em especial, tem a imagem de uma orixá. Só de ver já dá vontade de levar para casa. E o vendedor Leandro Leonardo garante: é de primeira qualidade!

                Velas, cartas de cigana, esculturas de santos e até a chave do céu compõe a prateleira interior da loja. O diferencial, segundo o comerciante, são os adereços dos orixás e os brajás de búzios, fabricados pelos próprios trabalhadores da loja. Para ele, é importante que as pessoas comprem e cultivem as tradições dos adereços dos orixás, como rabo de cavalo, pois não são meros detalhes que compõe um figurino de um pai de santo, mas sim o reflexo da continuidade de uma tradição de séculos. Essa preocupação com detalhes está marcada na maioria das mercadorias, pois praticamente todas as imagens de orixás e entidades do candomblé estão acompanhadas com seus respectivos adereços.

                Passeando pela feira, o que o visitante mais vê são pessoas comprando. Qualquer barraca sempre vai estar com um cliente em compras, independente do produto oferecido. “A feira é conhecida internacionalmente. Aqui tem diversos produtos que você consegue comprar num preçBarracas na feirao melhor que no mercado”, explica Paulo José, de 35 anos, que vai à Feira de São Joaquim toda semana. Não tem como passar por lá e não levar nenhuma lembrança. Afinal, os preços são bastante atraentes até para a população local.

                A Feira de São Joaquim é a melhor forma de um turista conhecer a realidade da Bahia e de seu povo do jeito que eles são. Apesar de toda a beleza e vivacidade da feira, é notável sua deficiência em infra-estrutura, mas não é nada que comprometa o passeio. Até porque planos de revitalização da feira já estão sendo propostos e algumas obras com parceria entre os governos federal, estadual e municipal já foram realizadas em maio de 2007, como a pavimentação de algumas ruas. A Embasa, por exemplo, está com um projeto que faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Salvador de drenagem pluvial e de esgoto. Dentre os projetos, há o banho de luz e o banho de asfalto, todos com o intuito de oferecer cada vez mais uma infra-estrutura de qualidade que não afete as características culturais da Feira de São Joaquim.

                O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) indicou a Feira de São Joaquim para se tornar um patrimônio cultural imaterial do país. De acordo com o site da Iphan, a feira está classificada como processos de registro em andamento. Ao receber este título, a feira é considerada, segundo a Unesco, como “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.” De acordo com a Iphan, o patrimônio imaterial apresenta características que promovem o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. E a feira está no rumo de ser reconhecida como tal. Portanto, não perca tempo, e venha conhecer essa maravilha chamada Feira de São Joaquim!

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